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A castração é a cirurgia mais realizada na clínica de pequenos animais e uma das decisões de saúde mais importantes na vida de um cão ou gato. Ela previne doenças graves, evita ninhadas indesejadas e reduz comportamentos que colocam o animal em risco, como fugas e brigas.
Nos últimos anos, porém, a ciência mostrou que a idade ideal não é a mesma para todos. Espécie, sexo, porte e até a raça pesam na decisão. Este guia resume o que dizem as diretrizes da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA), publicadas em 2024, e estudos que acompanharam dezenas de milhares de cães.
O que é a castração
- Nas fêmeas: retirada dos ovários, com ou sem o útero (ovariohisterectomia ou ovariectomia). Acaba com o cio e com a produção dos hormônios que alimentam várias doenças. Nas fêmeas saudáveis, as duas técnicas são consideradas eficazes.
- Nos machos: retirada dos testículos (orquiectomia). A bolsa escrotal permanece, mas fica vazia e diminui com o tempo.
As duas são feitas com anestesia geral, analgesia e técnica estéril. Na maioria dos casos, o animal volta para casa no mesmo dia. Em gatos machos a cirurgia é especialmente rápida.
Testículo que não desceu
Se um ou os dois testículos não estão na bolsa escrotal até cerca de 6 meses de idade, o cão ou gato tem criptorquidismo. O testículo retido, no abdômen ou na virilha, tem risco muito maior de desenvolver tumor e pode torcer. Por isso a castração é recomendada, retirando os dois. A cirurgia pode ser um pouco mais longa, porque é preciso localizar o testículo.
Benefícios para as fêmeas
- Elimina o risco de piometra, uma infecção grave do útero que atinge cerca de uma em cada quatro cadelas não castradas até os 10 anos. Leia mais no nosso guia sobre piometra.
- Reduz o risco de tumor de mama, principalmente quando feita antes dos primeiros cios. Em gatas, a castração antes de 1 ano também se associa a uma redução importante do risco de carcinoma mamário. Veja o guia de câncer de mama em cadelas e gatas.
- Acaba com o cio, o sangramento, a atração de machos e a gravidez psicológica.
- Evita ninhadas não planejadas e as complicações de parto.
- Previne tumores de ovário e útero e o prolapso vaginal ligado ao cio.
Benefícios para os machos
- Elimina o risco de tumores de testículo.
- Reduz muito a hiperplasia da próstata, que atinge praticamente todos os cães inteiros com o passar dos anos, e alguns tumores da região do ânus. Veja o guia de próstata em cães.
- Diminui fugas, brigas, montas e marcação de território com urina, especialmente quando feita cedo.
- Em gatos, reduz as brigas de rua e com elas a transmissão de doenças por mordidas e arranhões, como FIV e esporotricose, além do cheiro forte da urina do macho inteiro.
O outro lado: riscos e cuidados
Uma decisão bem informada considera também os pontos de atenção:
- Ganho de peso: a castração reduz a necessidade de calorias e, em gatos, aumenta o apetite. Ajuste a ração (em geral de 20% a 30% a menos, conforme orientação) e mantenha o animal ativo. Veja o guia de obesidade em cães e gatos.
- Incontinência urinária em cadelas: algumas cadelas castradas passam a perder urina, principalmente dormindo, sobretudo as de porte grande. Costuma responder bem ao tratamento.
- Articulações e alguns cânceres em raças grandes: estudos com mais de 35 raças mostraram que, em algumas raças grandes e gigantes, a castração muito precoce se associou a mais problemas articulares (como ruptura do ligamento cruzado e displasia) e a alguns tipos de câncer. Em cães pequenos e na maioria das raças, esse efeito não apareceu.
- Riscos anestésicos e cirúrgicos: baixos em animais jovens e saudáveis, e ainda menores com avaliação prévia, monitoração e controle da dor.
Qual a melhor idade?
A resposta certa sai da consulta. A tabela abaixo mostra as referências que costumam orientar essa conversa.
| Animal | Momento geralmente considerado | Observação |
|---|---|---|
| Gatos e gatas | Até os 5 meses | Antes da puberdade; evita cio, crias, marcação e fugas |
| Cães de pequeno porte (até 10 kg) | A partir dos 6 meses | Nas fêmeas, de preferência antes do primeiro ou segundo cio |
| Cães de porte médio | Entre 6 e 12 meses | Decisão individual, conforme raça e rotina |
| Cães de porte grande e gigante | Muitas vezes após 12 a 18 meses | Em algumas raças, esperar o fim do crescimento reduz riscos articulares |
| Adultos e idosos | Qualquer idade, após avaliação | Ainda previne piometra e doenças da próstata |
Castração pediátrica
Em programas de controle populacional e abrigos, filhotes são castrados com poucas semanas de vida, com técnica e anestesia adaptadas. Para gatos, as diretrizes atuais apoiam a castração até os 5 meses como rotina, justamente porque muitas gatas engravidam no primeiro cio.
Como se preparar para a cirurgia
- Consulta de avaliação: exame físico completo, histórico, vacinas e vermifugação em dia.
- Exames pré-operatórios: definidos conforme idade e condição, como hemograma, bioquímicos e, em alguns casos, avaliação cardíaca.
- Jejum: siga exatamente o tempo informado pela equipe. Jejum longo demais é prejudicial, principalmente em filhotes e animais pequenos.
- Banho: se quiser dar banho, faça alguns dias antes da cirurgia; depois, só com liberação.
- No dia: leve o animal com guia ou caixa de transporte, e leve o colar elizabetano ou a roupa cirúrgica, se já tiver.
Pós-operatório: o que depende de você
- Repouso por 10 a 14 dias: sem pular do sofá, correr, subir escadas ou brincar com outros animais.
- Colar elizabetano ou roupa cirúrgica o tempo todo, inclusive à noite. Uma lambida pode abrir os pontos ou infeccionar a ferida.
- Medicação nos horários certos até o fim, mesmo que o animal pareça bem.
- Ferida limpa e seca, sem pomadas caseiras.
- Comida e água: ofereça uma pequena quantidade à noite; a rotina volta no dia seguinte, com a ração ajustada.
- Retorno na data marcada para revisão.
Como deve estar a ferida
| Normal nos primeiros dias | Motivo para ligar |
|---|---|
| Leve vermelhidão na borda | Vermelhidão que aumenta a cada dia |
| Pequeno inchaço firme | Inchaço grande, mole ou que cresce |
| Crosta fina | Secreção com pus ou mau cheiro |
| Animal um pouco quieto no primeiro dia | Apatia, vômitos ou recusa de comida por mais de 24 horas |
| Pontos íntegros | Pontos abertos ou algo saindo pela ferida |
Mitos comuns
- "A cadela precisa ter uma cria antes." Falso. Não há benefício de saúde e aumenta o risco de tumor de mama.
- "Castrado fica preguiçoso." A energia depende de idade, raça e estímulo. O que muda é a necessidade calórica.
- "Macho castrado deixa de proteger a casa." A castração reduz comportamentos sexuais, não o vínculo com a família.
- "Gato de apartamento não precisa castrar." Precisa: o cio da gata é intenso e repetitivo, e o macho inteiro tende a marcar a casa com urina.
- "Castração resolve qualquer problema de comportamento." Não. Ela reduz comportamentos ligados aos hormônios; medo e agressividade por outras causas precisam de outras abordagens. Veja, por exemplo, o guia de medo de fogos.
- "Cadela castrada não pode ter nenhum sangramento." Sangramento vaginal depois da castração merece avaliação.
Castração e responsabilidade
No Brasil, a Lei nº 13.426/2017 criou a política de controle da natalidade de cães e gatos, reconhecendo a castração como ferramenta de saúde pública. Uma gata pode ter várias ninhadas por ano; cada ninhada não planejada aumenta o número de animais sem lar, expostos a doenças, atropelamentos e maus-tratos.
Castração na Bichos & Cia, em Ubá
A castração na Bichos & Cia começa com uma consulta de avaliação e segue com exames definidos para cada paciente, protocolo anestésico individual e orientação de pós-operatório por escrito. Recebemos tutores de Ubá e de cidades vizinhas. Conheça o serviço de castração de cães e gatos e fale com a equipe para agendar.
Referências
- Romagnoli S, Krekeler N, de Cramer K, Kutzler M, McCarthy R, Schaefer-Somi S. WSAVA guidelines for the control of reproduction in dogs and cats. Journal of Small Animal Practice. 2024;65(7):424-559. doi:10.1111/jsap.13724
- Hart BL, Hart LA, Thigpen AP, Willits NH. Assisting decision-making on age of neutering for 35 breeds of dogs: associated joint disorders, cancers, and urinary incontinence. Frontiers in Veterinary Science. 2020;7:388. doi:10.3389/fvets.2020.00388
- Root Kustritz MV. Determining the optimal age for gonadectomy of dogs and cats. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2007;231(11):1665-1675.
- Beauvais W, Cardwell JM, Brodbelt DC. The effect of neutering on the risk of mammary tumours in dogs: a systematic review. Journal of Small Animal Practice. 2012;53(6):314-322.
- Overley B, Shofer FS, Goldschmidt MH, Sherer D, Sorenmo KU. Association between ovarihysterectomy and feline mammary carcinoma. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2005;19(4):560-563.
- Egenvall A, Hagman R, Bonnett BN, et al. Breed risk of pyometra in insured dogs in Sweden. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2001;15(6):530-538.
- Howe LM. Surgical methods of contraception and sterilization. Theriogenology. 2006;66(3):500-509.
- Brasil. Lei nº 13.426, de 30 de março de 2017. Dispõe sobre a política de controle da natalidade de cães e gatos.




