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A esporotricose é uma micose causada por fungos do gênero Sporothrix. No Brasil, a espécie Sporothrix brasiliensis transformou a doença em uma epidemia: começou no Rio de Janeiro no fim dos anos 1990 e hoje aparece em quase todas as regiões do país. Em Minas Gerais os casos vêm aumentando, e em 2025 o crescimento entre gatos de Belo Horizonte chegou a ser tema de audiência pública na Câmara Municipal. No mesmo ano, a esporotricose humana passou a ser de notificação compulsória em todo o Brasil.
O gato é o principal transmissor. As feridas de um gato doente têm uma quantidade enorme de fungos, que passam para outros gatos, cães e pessoas por arranhões, mordidas e contato com a secreção.
Por que o gato é tão importante nessa doença
Na forma clássica, a pessoa se infectava ao se ferir com espinhos, farpas ou terra contaminada, o que deu à doença o apelido de "doença do jardineiro". O S. brasiliensis mudou esse padrão: ele se multiplica muito na pele do gato, e as feridas felinas carregam fungos em grande quantidade. Gatos que brigam na rua se arranham e se mordem, e a doença se espalha de gato para gato e daí para as pessoas da casa.
Sinais no gato
- Feridas que não cicatrizam, às vezes com crostas e secreção
- Nódulos ("caroços") que se abrem e viram úlceras
- Lesões na cabeça, principalmente no nariz, nas orelhas e ao redor dos olhos, e também nas patas e na cauda
- Nariz inchado e deformado
- Espirros, secreção nasal e dificuldade para respirar
- Apatia, emagrecimento e falta de apetite nos casos avançados
Os mais atingidos são gatos machos, não castrados, que saem de casa e brigam com outros gatos.
| Ferida comum de briga | Pode ser esporotricose |
|---|---|
| Melhora em poucos dias | Não cicatriza em 1 a 2 semanas ou piora |
| Uma lesão isolada | Várias lesões, em lugares diferentes |
| Nariz normal | Nariz inchado, com ferida ou deformado |
| Gato bem disposto | Espirros, secreção nasal, emagrecimento |
E nas pessoas?
Na pessoa, a esporotricose costuma começar como uma ferida ou um nódulo no local do arranhão, geralmente na mão ou no braço, que não cicatriza. Depois podem surgir outros nódulos subindo pelo braço, no caminho dos vasos linfáticos. Às vezes o fungo atinge os olhos, causando conjuntivite. Existe tratamento e a maioria das pessoas se cura.
Diagnóstico
- Citologia: uma amostra da ferida vai ao microscópio. No gato, os fungos costumam ser tão numerosos que o exame muitas vezes já mostra o agente.
- Cultura fúngica: é o exame de referência e identifica o Sporothrix.
- PCR e exames complementares, quando necessários, incluindo hemograma e bioquímica antes do tratamento, para avaliar o fígado e a saúde geral. Em gatos com espirros, o veterinário pode investigar o acometimento do nariz.
Tratamento
O tratamento é feito com antifúngico por via oral, por vários meses, e deve continuar por cerca de um mês depois que as feridas fecharem. Em casos mais difíceis, como lesões no nariz ou que não respondem, o veterinário pode associar outros medicamentos ou procedimentos. Durante o tratamento, são feitos exames para acompanhar a resposta e o fígado.
Como dar remédio ao gato por meses
- Mesmo horário todos os dias, associado a um momento agradável, como a refeição.
- Envolva o gato em uma toalha, deixando só a cabeça de fora. Isso protege você de arranhões.
- Segure a cabeça por cima, incline levemente para trás, abra a boca pelo canto e coloque a cápsula bem no fundo da língua.
- Ofereça em seguida um pouco de água com seringa (sem agulha) ou um petisco úmido, para a cápsula descer.
- Pergunte à equipe se o medicamento pode ser manipulado em outra forma ou dado com comida. Alguns são mais bem absorvidos junto com alimento.
Se o gato vomitar ou recusar o remédio vários dias seguidos, avise a equipe. Não ajuste a dose por conta própria.
Cuidados em casa durante o tratamento
- Isole o gato doente em um cômodo, longe de outros animais, até as feridas cicatrizarem.
- Use luvas ao manipular o gato, dar remédio e limpar feridas, e lave as mãos depois.
- Evite arranhões: mantenha as unhas aparadas e use uma toalha para contê-lo com segurança.
- Limpe o ambiente com água sanitária diluída, conforme orientação, e lave caminhas e cobertores.
- Não deixe o gato sair de casa durante o tratamento.
- Não abandone o animal. Abandono espalha a doença.
Mitos e verdades
- "Gato com esporotricose tem que ser sacrificado." Mito. A maioria se cura com tratamento completo.
- "Só pega quem mexe com terra." Hoje, no Brasil, o gato doente é a principal fonte de infecção para as pessoas.
- "Passou pomada e a ferida fechou, então curou." Mito. O tratamento é oral e prolongado.
- "Cachorro também transmite muito." O cão pode adoecer, mas raramente transmite para pessoas.
- "Gato de apartamento não pega." O risco é muito menor, mas gatos que escapam ou recebem visitas de gatos de rua podem se infectar.
Prevenção
- Castração: reduz fugas e brigas, a principal forma de contágio entre gatos. Leia o guia de castração. Brigas também transmitem a FIV.
- Gato dentro de casa: telas em janelas e sacadas diminuem o contato com gatos de rua.
- Luvas na jardinagem: a forma clássica de infecção humana é pelo contato de feridas com plantas, madeira e solo contaminados.
- Atenção a feridas: qualquer ferida que não cicatriza em um gato merece consulta rápida.
- Corpo de animal morto: não enterre; procure orientação para cremação.
Casos da doença devem ser comunicados à vigilância em saúde ou ao serviço de zoonoses do município, que orienta as medidas na vizinhança.
Esporotricose na Bichos & Cia, em Ubá
Na Bichos & Cia examinamos feridas suspeitas, coletamos material para citologia e cultura e acompanhamos o tratamento até a cura, com orientação para proteger a família. Atendemos tutores de Ubá e das cidades vizinhas. Conheça nossa consulta veterinária para gatos e o atendimento em dermatologia veterinária.
Referências
- Gremião IDF, Miranda LHM, Reis EG, Rodrigues AM, Pereira SA. Zoonotic epidemic of sporotrichosis: cat to human transmission. PLoS Pathogens. 2017;13(1):e1006077. Texto completo
- Gremião IDF, Martins da Silva da Rocha E, Montenegro H, et al. Guideline for the management of feline sporotrichosis caused by Sporothrix brasiliensis and literature revision. Brazilian Journal of Microbiology. 2021;52(1):107-124. doi:10.1007/s42770-020-00365-3
- Gremião IDF, Menezes RC, Schubach TMP, et al. Feline sporotrichosis: epidemiological and clinical aspects. Medical Mycology. 2015;53(1):15-21.
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 6.734, de 18 de março de 2025. Inclui a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória.
- Câmara Municipal de Belo Horizonte. Poder público e especialistas vão discutir surto de esporotricose em gatos de BH. 2025. cmbh.mg.gov.br




