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Cães e gatos não suam como nós. O cão perde calor principalmente ofegando e por meio das almofadinhas das patas. Quando o ambiente está quente e úmido, ou quando o animal se exercita demais, esse sistema não dá conta: a temperatura do corpo dispara e pode passar de 41 °C. É o golpe de calor, ou insolação.
Com o calor subindo a partir da primavera na Zona da Mata mineira, esse é um dos guias mais importantes do ano. Em um estudo com cães atendidos por golpe de calor, cerca de metade morreu, apesar do tratamento. A prevenção e a reação rápida salvam vidas.
Não é só o carro fechado
Quando se fala em golpe de calor, todo mundo pensa no cão esquecido no carro. Esse risco é real, mas não é o mais comum. Um grande estudo no Reino Unido mostrou que cerca de 3 em cada 4 casos aconteceram durante exercício: passeios, corridas, brincadeiras com bola, trilhas. Os casos em veículos foram uma parcela pequena.
Ou seja: o passeio da tarde, a corrida com o tutor e a brincadeira no quintal ao sol são os momentos de maior risco.
Quem tem mais risco
| Fator de risco | Por quê |
|---|---|
| Focinho curto (braquicefálicos): Buldogue Inglês e Francês, Pug, Shih Tzu, Boxer | Vias aéreas estreitas: ofegar é menos eficiente |
| Raças de pelo denso, como Chow Chow e Husky | Mais isolamento térmico |
| Sobrepeso e obesidade | Gordura isola o calor e o esforço é maior |
| Cães grandes e gigantes | Geram mais calor e perdem com mais dificuldade |
| Idosos, filhotes e cardiopatas | Menor capacidade de compensação |
| Doenças respiratórias, paralisia de laringe | Respiração prejudicada |
| Cães muito ativos e obstinados, como os que não param de buscar a bola | Não param sozinhos quando estão no limite |
No estudo britânico, as raças de focinho curto tiveram cerca do dobro do risco das raças de focinho médio, e o Chow Chow e o Buldogue Inglês estiveram entre as de maior risco.
Sinais de alerta
| Início (aja já) | Grave (emergência) |
|---|---|
| Ofegar muito intenso, que não diminui com descanso | Cambalear, fraqueza, não conseguir levantar |
| Muita baba, espessa | Vômitos ou diarreia, às vezes com sangue |
| Língua e gengivas vermelho-escuras | Gengivas pálidas, acinzentadas ou roxas |
| Procura sombra ou água sem parar, inquietação | Confusão, olhar perdido, não responde ao chamado |
| Cansaço fora do normal no passeio | Convulsões, desmaio, manchas roxas na pele |
Primeiros socorros: o que fazer
- Tire o animal do calor: sombra, ar-condicionado ou local ventilado.
- Molhe o corpo com água fresca da torneira, principalmente barriga, axilas, virilha, pescoço e patas. Não precisa ser gelada.
- Ventile: ventilador, abanador ou janelas abertas do carro. A água só resfria se evaporar.
- Ofereça água para beber se ele estiver consciente e engolindo bem. Não force.
- Leve à clínica imediatamente, continuando a molhar e ventilar no caminho. Avise a equipe por telefone ou WhatsApp.
O que não fazer
- Não use gelo nem água gelada no corpo todo: contraem os vasos da pele, dificultam a perda de calor e causam tremores.
- Não cubra com toalha molhada parada: ela esquenta e prende o calor.
- Não force água em animal fraco ou inconsciente: há risco de aspiração.
- Não espere melhorar em casa: as lesões internas podem aparecer horas depois.
- Não dê remédios para febre de uso humano. Vários são tóxicos para cães e gatos, e golpe de calor não é febre.
O que acontece na clínica
O golpe de calor não é só "calor demais". A temperatura muito alta lesiona células no corpo todo e pode causar:
- lesão nos rins, com redução da urina;
- danos no intestino, com diarreia com sangue e passagem de bactérias para o sangue;
- distúrbios da coagulação, com manchas roxas e sangramentos;
- inchaço no cérebro, com convulsões e coma;
- queda da glicose.
O tratamento inclui resfriamento controlado até cerca de 39,5 °C (para não causar o efeito contrário), soro na veia, oxigênio, exames repetidos e internação com monitoração, geralmente por 24 a 72 horas ou mais. Em um estudo, obesidade e convulsões estiveram entre os fatores associados a pior evolução.
Prevenção no dia a dia
- Passeios bem cedo ou no fim do dia, nunca no horário mais quente. Em dias muito quentes, troque o passeio longo por brincadeiras calmas dentro de casa.
- Teste o chão: coloque as costas da mão no asfalto por 5 segundos. Se não aguentar, está quente demais para as patas, que podem sofrer queimaduras.
- Água fresca sempre, em mais de um lugar da casa. Leve água nos passeios.
- Sombra e ventilação no quintal e no canil. Casinhas de metal ou ao sol viram fornos.
- Nunca deixe o animal no carro, mesmo com a janela aberta ou "só por um minuto". A temperatura interna de um carro fechado sobe cerca de 20 °C em uma hora, com a maior parte do aumento nos primeiros 30 minutos, mesmo em dias amenos.
- Controle de peso: cães acima do peso sofrem mais com o calor. Veja o guia de obesidade em cães e gatos.
- Pare a brincadeira antes do cão: muitos cães não param sozinhos. Faça pausas na sombra.
- Festas de fim de ano com fogos: o ofegar intenso de um cão em pânico, em noites quentes, também sobrecarrega o corpo. Veja o guia de medo de fogos.
- Braquicefálicos exigem cuidado redobrado: evite exercícios em dias quentes e observe ronco e cansaço.
Gatos, coelhos e porquinhos-da-índia
- Gatos costumam se proteger melhor, mas gatos de focinho curto (Persa, Exótico), obesos, idosos ou presos em locais quentes, como carros, varandas fechadas e secadoras, podem ter golpe de calor. Gato ofegante, respirando de boca aberta, precisa de atendimento.
- Coelhos e porquinhos-da-índia toleram mal o calor. Acima de cerca de 28 °C já correm risco. Mantenha a gaiola longe do sol direto, em local ventilado, ofereça garrafas de água congelada envoltas em pano para eles se encostarem e nunca deixe a gaiola ao sol. Veja os guias de coelhos e de porquinho-da-índia.
Mitos e verdades
- "Cachorro que ofega está só com calor, é normal." Ofegar faz parte, mas ofegar intenso que não passa com descanso é alerta.
- "Se ele quer continuar brincando, está tudo bem." Mito. Muitos cães ignoram o próprio limite.
- "Raspar o pelo sempre ajuda." Não para todas as raças. Em raças de pelo duplo pode atrapalhar.
- "Gelo é o mais rápido." Água fresca com ventilação é o recomendado.
- "Na sombra do carro não tem perigo." O carro esquenta rápido mesmo na sombra.
Urgência veterinária na Bichos & Cia, em Ubá
Na suspeita de golpe de calor, comece o resfriamento e ligue ou mande mensagem para a Bichos & Cia avisando que está a caminho. A equipe prepara a recepção, faz o resfriamento controlado, os exames e a internação e monitoramento. Saiba mais sobre as urgências veterinárias. Atendemos Ubá e cidades da região.
Referências
- Bruchim Y, Klement E, Saragusty J, Finkeltov E, Kass P, Aroch I. Heat stroke in dogs: a retrospective study of 54 cases (1999-2004) and analysis of risk factors for death. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2006;20(1):38-46.
- Hall EJ, Carter AJ, O'Neill DG. Dogs don't die just in hot cars: exertional heat-related illness (heatstroke) is a greater threat to UK dogs. Animals. 2020;10(8):1324. Texto completo
- Hall EJ, Carter AJ, O'Neill DG. Incidence and risk factors for heat-related illness (heatstroke) in UK dogs under primary veterinary care in 2016. Scientific Reports. 2020;10:9128.
- Bruchim Y, Horowitz M, Aroch I. Pathophysiology of heatstroke in dogs: revisited. Temperature. 2017;4(4):356-370.
- McLaren C, Null J, Quinn J. Heat stress from enclosed vehicles: moderate ambient temperatures cause significant temperature rise in enclosed vehicles. Pediatrics. 2005;116(1):e109-e112.




