Neste artigo 11 tópicos
- Porquinho-da-índia não é lagomorfo
- Para que serve a vitamina C
- Escorbuto: os sinais da falta de vitamina C
- Quanto ele precisa por dia
- As melhores fontes na alimentação
- Erros comuns
- Quando suplementar
- Outros cuidados que fazem diferença
- E os coelhos?
- Pets não convencionais e a lei
- Porquinho-da-índia na Bichos & Cia, em Ubá
Poucos tutores sabem, mas o porquinho-da-índia tem uma característica em comum com os seres humanos: não consegue fabricar a própria vitamina C. A maioria dos mamíferos produz essa vitamina no fígado, mas o porquinho, assim como nós, os outros primatas e alguns morcegos, perdeu essa capacidade ao longo da evolução.
A explicação está no DNA. O gene da enzima que conclui a produção da vitamina C (a L-gulonolactona oxidase) existe no porquinho, mas acumulou tantas mutações que deixou de funcionar. Por isso toda a vitamina C que ele usa precisa vir da alimentação, todos os dias. E o corpo dele guarda pouca reserva: sem ingestão, as reservas caem em cerca de duas semanas.
Porquinho-da-índia não é lagomorfo
Uma confusão muito comum: o porquinho-da-índia (Cavia porcellus) é um roedor, do grupo dos caviomorfos, o mesmo da capivara e da chinchila. Os lagomorfos formam outra ordem de mamíferos, que reúne coelhos, lebres e pikas.

A diferença importa na prática: o coelho produz a própria vitamina C, e o porquinho não. A capivara, parente próxima do porquinho, também desenvolve escorbuto quando é criada em cativeiro sem vitamina C na dieta.
| Porquinho-da-índia | Coelho | |
|---|---|---|
| Grupo | Roedor (caviomorfo) | Lagomorfo |
| Produz vitamina C? | Não | Sim |
| Dentes | Crescem a vida toda | Crescem a vida toda |
| Base da dieta | Feno à vontade | Feno à vontade |
| Ração | Própria para porquinho, com vitamina C | Própria para coelho |
| Veja também | Este guia | Cuidados com coelhos |
Para que serve a vitamina C
A vitamina C é indispensável para a formação do colágeno, a proteína que dá resistência à pele, aos vasos sanguíneos, às gengivas, às articulações e aos ossos. Ela também participa da defesa do organismo contra infecções e da cicatrização. Por isso a falta aparece primeiro onde o colágeno trabalha mais: articulações, gengivas e vasos.
Escorbuto: os sinais da falta de vitamina C
Com uma dieta pobre em vitamina C, os sinais podem aparecer em poucas semanas:
| Sinais iniciais | Sinais avançados |
|---|---|
| Pelos arrepiados e sem brilho | Articulações inchadas, andar mancando ou "na ponta dos pés" |
| Come menos, perde peso | Manchas roxas e sangramentos sob a pele |
| Menos ativo, prefere ficar parado | Gengivas inchadas, dentes frouxos, dificuldade para comer |
| Dor ao ser pego no colo | Diarreia, feridas que não cicatrizam, pneumonia |
Muitas vezes a falta de vitamina C não aparece sozinha: ela deixa o porquinho mais vulnerável a infecções respiratórias e problemas dentários, e ele pode chegar à clínica por "outro motivo".
Quanto ele precisa por dia
Segundo o Manual Merck de Veterinária:
| Situação | Vitamina C diária |
|---|---|
| Adulto saudável | pelo menos 10 mg por kg de peso |
| Filhote em crescimento | cerca de 30 mg por kg |
| Fêmea prenhe ou amamentando | cerca de 30 mg por kg |
| Animal doente ou em recuperação | quantidade definida pelo veterinário, em geral maior |
Um porquinho adulto costuma pesar entre 0,7 e 1,2 kg. Na prática, isso significa cerca de 10 a 15 mg por dia para um adulto saudável, e o dobro ou o triplo nas fases de maior necessidade.
As melhores fontes na alimentação
A base: feno, ração própria e verduras
- Feno de capim à vontade, o tempo todo. É a base da dieta, mantém o intestino funcionando e desgasta os dentes, que crescem a vida inteira. Feno de alfafa, rico em cálcio, fica reservado a filhotes e gestantes, com orientação.
- Ração própria para porquinho-da-índia, enriquecida com vitamina C, em quantidade controlada.
- Verduras e legumes frescos todos os dias, bem lavados, cerca de uma xícara por quilo de peso, variando os tipos.
- Frutas só de vez em quando, em pedaços pequenos, por causa do açúcar.
- Água fresca sempre disponível, trocada diariamente.
Tabela de alimentos ricos em vitamina C
Valores aproximados para o alimento cru, a cada 100 g, segundo tabelas de composição de alimentos:
| Alimento | Vitamina C (mg/100 g) | Como oferecer |
|---|---|---|
| Pimentão amarelo | cerca de 180 | Tiras, no dia a dia |
| Pimentão vermelho | cerca de 130 | Tiras, no dia a dia |
| Pimentão verde | cerca de 80 | Tiras, alternando com os outros |
| Salsinha | cerca de 130 | Pouca quantidade (rica em cálcio) |
| Couve | cerca de 95 | Folhas, no dia a dia |
| Brócolis | cerca de 90 | Pequena quantidade (pode dar gases) |
| Goiaba | cerca de 230 | Petisco eventual (doce) |
| Kiwi | cerca de 90 | Petisco eventual (doce) |
| Laranja | cerca de 50 | Petisco eventual (ácida e doce) |
Uma tira de 10 a 15 g de pimentão vermelho já cobre a necessidade básica diária de um adulto.
O que não oferecer
- Cebola, alho, alho-poró e cebolinha
- Batata crua, folhas e brotos de batata e tomate
- Abacate, chocolate, doces, pães e biscoitos
- Sementes, castanhas e alimentos gordurosos
- Carnes, leite e derivados
Excesso de alimentos ricos em cálcio, como salsinha, espinafre e alfafa, pode favorecer cálculos na bexiga, um problema comum em porquinhos adultos.
Erros comuns
- Confiar só na ração. A vitamina C da ração se degrada com calor, luz e umidade, e a ração perde boa parte dela alguns meses depois de fabricada. Confira a data de fabricação, compre pacotes pequenos e guarde em local fresco, seco e fechado.
- Dar ração de coelho. Ela não é formulada para as necessidades do porquinho.
- Colocar vitamina C na água. A vitamina se degrada em poucas horas, principalmente com luz e bebedouro de metal, e o gosto pode fazer o animal beber menos.
- Usar multivitamínicos por conta própria. Excesso de outras vitaminas, como A e D, pode fazer mal.
- Oferecer muita fruta. Açúcar em excesso causa problemas digestivos e obesidade.
- Faltar feno. Sem feno à vontade, os dentes crescem demais e o intestino desacelera.
Quando suplementar
Em filhotes, fêmeas prenhes, animais doentes, idosos ou quando a dieta não é suficiente, o veterinário pode indicar suplemento de vitamina C próprio para roedores, dado direto na boca ou em petisco, na dose certa para o peso do animal. No tratamento do escorbuto, as doses são maiores por algumas semanas e o porquinho pode precisar de alimentação assistida e controle da dor.
Outros cuidados que fazem diferença
- Pese toda semana em uma balança de cozinha e anote. Perda de peso é um dos primeiros sinais de doença.
- Calor é perigoso. Porquinhos toleram mal temperaturas altas; mantenha a gaiola na sombra, longe de sol direto, em local ventilado. Veja o guia de golpe de calor.
- Companhia: são animais sociais e costumam viver melhor em pares ou grupos compatíveis.
- Gaiola espaçosa, com piso sólido e forração macia; pisos de grade machucam as patas.
- Dentes: baba, dificuldade para comer ou emagrecimento podem indicar dentes grandes demais.
E os coelhos?
Os coelhos (Oryctolagus cuniculus) são lagomorfos e produzem a própria vitamina C no fígado. Não precisam de suplementação. As prioridades para eles são feno à vontade, folhas verdes frescas, pouca ração e atenção aos dentes, que crescem continuamente. Leia o guia completo de cuidados com coelhos.
Pets não convencionais e a lei
Porquinhos-da-índia, coelhos e hamsters são animais domésticos, chamados de pets não convencionais ou exóticos. Já os animais silvestres, da fauna brasileira, só podem ser mantidos com autorização do órgão ambiental. Na dúvida sobre um animal, consulte a equipe antes de adquirir.
Porquinho-da-índia na Bichos & Cia, em Ubá
Porquinhos-da-índia disfarçam bem a dor. Consultas regulares ajudam a revisar a dieta, o peso e os dentes e a identificar problemas cedo. Fale com a equipe da Bichos & Cia para tirar dúvidas e agendar uma avaliação. Atendemos tutores de Ubá e das cidades vizinhas.
Referências
- Nishikimi M, Kawai T, Yagi K. Guinea pigs possess a highly mutated gene for L-gulono-gamma-lactone oxidase, the key enzyme for L-ascorbic acid biosynthesis missing in this species. Journal of Biological Chemistry. 1992;267(30):21967-21972.
- Merck Veterinary Manual. Nutritional problems of guinea pigs. merckvetmanual.com
- Quesenberry KE, Orcutt CJ, Mans C, Carpenter JW, editors. Ferrets, Rabbits, and Rodents: Clinical Medicine and Surgery. 4th ed. St. Louis: Elsevier; 2020.
- Cueto GR, Allekotte R, Kravetz FO. Scurvy in capybaras bred in captivity in Argentine. Journal of Wildlife Diseases. 2000;36(1):97-101. PubMed
- National Research Council. Nutrient Requirements of Laboratory Animals. 4th rev. ed. Washington, DC: National Academy Press; 1995.
- U.S. Department of Agriculture. FoodData Central: peppers, sweet, red, raw (FDC ID 170108) e demais alimentos da tabela.
- Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA/Unicamp). Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO). 4. ed. Campinas: NEPA/Unicamp; 2011.




