Neste artigo 10 tópicos
A doença periodontal é a inflamação e a infecção dos tecidos que sustentam o dente: gengiva, ligamento periodontal, cemento e osso. É uma das doenças mais comuns em cães e gatos adultos. Em estudos que examinaram a boca sob anestesia, ela apareceu em 44% a 100% dos cães avaliados, e os de pequeno porte são os mais afetados.
O problema é que ela avança em silêncio. Cães e gatos raramente deixam de comer por dor de dente, e o tutor percebe apenas o mau hálito, que acaba confundido com algo "normal da idade".
Como a doença começa
- Minutos depois da refeição, uma película de saliva e bactérias começa a cobrir os dentes. Em poucos dias ela vira a placa bacteriana.
- Os minerais da saliva endurecem a placa, que se transforma em tártaro (cálculo), a crosta amarelada ou marrom que o tutor vê. A superfície áspera do tártaro acumula ainda mais placa.
- As bactérias avançam para baixo da gengiva, provocando gengivite: gengiva vermelha, inchada, que sangra.
- Sem tratamento, a inflamação destrói o ligamento e o osso ao redor da raiz. É a periodontite, com bolsas entre a gengiva e o dente, retração, pus, dentes moles e dor.
Os estágios da doença
O Colégio Americano de Odontologia Veterinária classifica cada dente em estágios. Eles ajudam a decidir o tratamento:
| Estágio | O que acontece | O que costuma ser feito |
|---|---|---|
| Gengivite (PD1) | Gengiva inflamada, sem perda de osso | Limpeza profissional e cuidado em casa: é reversível |
| Periodontite inicial (PD2) | Perda de até 25% da sustentação | Limpeza abaixo da gengiva e acompanhamento |
| Periodontite moderada (PD3) | Perda entre 25% e 50% | Tratamento das bolsas; alguns dentes podem precisar de extração |
| Periodontite avançada (PD4) | Perda de mais de 50% | Em geral, extração do dente comprometido |
Sinais que merecem atenção
- Mau hálito persistente
- Tártaro amarelado ou marrom, principalmente nos dentes do fundo
- Gengiva vermelha, inchada ou que sangra
- Mastigar de um lado só, deixar ração cair ou preferir comida mole
- Salivação, esfregar a boca com a pata
- Dentes moles ou quebrados
- Inchaço no rosto, abaixo do olho (abscesso de raiz)
- Espirros e secreção nasal de um lado só, que podem vir de dentes do maxilar
- Mudança de comportamento: irritação ao tocar a cabeça, menos vontade de brincar com brinquedos

Não é só a boca
A boca inflamada é uma porta aberta para bactérias chegarem à corrente sanguínea. Estudos com milhares de cães associaram a gravidade da doença periodontal a alterações no coração, nos rins e no fígado. Associação não prova causa, mas o recado é claro: tratar a boca faz parte de cuidar do animal inteiro. Em gatos, a doença periodontal também aparece entre os fatores associados à doença renal crônica.
Outros riscos locais:
- Fratura da mandíbula enfraquecida pela perda de osso, principalmente em cães muito pequenos
- Fístula oronasal: comunicação entre a boca e o nariz, comum na raiz dos caninos superiores, que causa espirros e secreção nasal
- Abscessos de raiz, que podem abrir no rosto
- Dor crônica, que muitas vezes só é percebida depois do tratamento, quando o animal "rejuvenesce"
Cães pequenos e gatos: atenção redobrada
Raças pequenas, como Yorkshire, Poodle, Shih-tzu, Maltês, Pinscher, Chihuahua e Lhasa Apso, têm dentes proporcionalmente grandes para a mandíbula, muitas vezes apinhados, o que acumula placa. Nos braquicefálicos (focinho curto) o apinhamento é ainda maior. Dentes de leite que não caem (persistentes) também favorecem o acúmulo e devem ser avaliados até os 6 ou 7 meses de idade.
Nos gatos, além da doença periodontal, são comuns:
- Reabsorção dentária: lesões que corroem o dente a partir da raiz e são muito dolorosas. Muitas vezes só aparecem na radiografia.
- Gengivoestomatite crônica felina: inflamação intensa da gengiva e do fundo da boca, com dor forte e dificuldade para comer.
Gato que baba, tem mau hálito, "bate os dentes", come de lado ou vai ao pote e desiste merece avaliação.
Como é o tratamento profissional
O tratamento correto é feito com anestesia geral, que permite examinar e limpar a boca inteira com segurança, com as vias aéreas protegidas por sonda. Ele inclui:
- Avaliação pré-anestésica, com exames definidos conforme idade e condição do animal.
- Exame dente a dente, com sondagem das bolsas periodontais e registro em ficha (odontograma).
- Radiografia odontológica, sempre que disponível, para ver raízes e osso.
- Remoção do tártaro acima e abaixo da gengiva, com ultrassom e instrumentos manuais.
- Polimento, que deixa a superfície lisa e retarda o acúmulo de nova placa.
- Tratamento dos dentes comprometidos, incluindo extração quando o dente não tem mais sustentação ou é fonte de dor, com controle da dor durante e depois do procedimento.

Antibiótico sozinho não trata doença periodontal: ele pode aliviar por alguns dias, mas a causa (placa e tártaro) continua lá.
E a anestesia em animais idosos?
Idade não é doença. O que define o risco é a saúde do paciente, e ela é avaliada antes do procedimento, com exames de sangue e, quando indicado, avaliação cardíaca. Com protocolo individual, fluidoterapia e monitoração, a maioria dos idosos passa bem pela anestesia. Adiar indefinidamente o tratamento também tem riscos: infecção constante, dor e perda de dentes.
Depois do procedimento
- O animal volta para casa no mesmo dia na maioria dos casos
- Se houve extrações, pode ser indicado alimento úmido ou ração amolecida por alguns dias
- Analgésicos devem ser dados nos horários certos
- A escovação recomeça quando o veterinário liberar, em geral após a cicatrização
- O retorno permite conferir a cicatrização e ajustar o plano de cuidados em casa
Prevenção em casa: escovar funciona
A escovação diária é a medida com melhor evidência para prevenir a doença periodontal. Escovar a cada 2 ou 3 dias já ajuda, mas o efeito cai bastante, porque a placa começa a endurecer em poucos dias.
Passo a passo para acostumar seu pet
- Semana 1: toque a boca e os lábios por alguns segundos e ofereça um petisco.
- Semana 2: passe o dedo com um pouco de creme dental veterinário nos dentes (o sabor ajuda).
- Semana 3: use dedeira ou escova de cerdas macias, só nos dentes da frente e nos caninos.
- Semana 4 em diante: avance para os dentes do fundo. Foque no lado de fora dos dentes e na linha da gengiva. Trinta segundos de cada lado bastam.
Dicas: escolha um horário tranquilo, sempre o mesmo; termine com brincadeira ou petisco; nunca force. Em gatos, o processo costuma ser mais lento: tenha paciência e use escovas pequenas.
O que complementa a escovação
- Cremes, géis e sprays dentais veterinários
- Petiscos e dietas com efeito mecânico ou enzimático comprovado; o selo do Conselho de Saúde Oral Veterinária (VOHC) indica produtos testados
- Brinquedos de mastigação com textura adequada
Mitos e verdades
- "Ração seca limpa os dentes." Mito, em grande parte. A maioria das rações comuns quebra na ponta do dente e não limpa a gengiva.
- "Mau hálito é normal em cachorro velho." Mito. Mau hálito é sinal de doença em qualquer idade.
- "Se ele come normalmente, não sente dor." Mito. Animais continuam comendo mesmo com dor intensa na boca.
- "Cachorro não tem cárie." Quase verdade: cárie é rara em cães, mas a doença periodontal é muito comum.
- "Escovar todo dia faz diferença." Verdade. É a medida mais eficaz que existe.
Com que frequência avaliar a boca
Todo check-up deve incluir o exame da boca. A necessidade de limpeza profissional varia: alguns animais precisam uma vez por ano, outros em intervalos maiores. Quem escova todos os dias costuma precisar de menos intervenções. Cães pequenos, braquicefálicos e gatos idosos merecem atenção mais frequente.
Saúde oral na Bichos & Cia, em Ubá
Na Bichos & Cia fazemos a avaliação da boca na consulta e, quando indicado, a limpeza profissional com anestesia, avaliação pré-operatória e orientação de cuidados em casa. Conheça o serviço de saúde oral e profilaxia e veja no nosso Pet Shop os itens de higiene bucal, com envio para todo o Brasil.
Referências
- Bellows J, Berg ML, Dennis S, et al. 2019 AAHA Dental Care Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association. 2019;55(2):49-69.
- Niemiec B, Gawor J, Nemec A, et al. World Small Animal Veterinary Association Global Dental Guidelines. Journal of Small Animal Practice. 2020;61(7):E36-E161.
- Wallis C, Holcombe LJ. A review of the frequency and impact of periodontal disease in dogs. Journal of Small Animal Practice. 2020;61(9):529-540. PubMed
- O'Neill DG, et al. Epidemiology of periodontal disease in dogs in the UK primary-care veterinary setting. Journal of Small Animal Practice. 2021. doi:10.1111/jsap.13405
- Glickman LT, Glickman NW, Moore GE, et al. Evaluation of the risk of endocarditis and other cardiovascular events on the basis of the severity of periodontal disease in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2009;234(4):486-494.
- Harvey CE. Management of periodontal disease: understanding the options. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2005;35(4):819-836.
- American Veterinary Dental College. Nomenclature: periodontal disease stages (PD0 a PD4).




