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A leishmaniose visceral é uma doença causada pelo protozoário Leishmania infantum. Ela afeta cães, outros mamíferos e também pessoas, nas quais é conhecida como calazar. Minas Gerais está entre os estados brasileiros com mais registros da doença, que vem se expandindo para novas cidades nas últimas décadas.
O cão é o principal reservatório da doença nas cidades. Por isso cuidar do cão é também uma medida de saúde pública.
Como a doença é transmitida
A transmissão acontece pela picada da fêmea do flebotomíneo, um inseto muito pequeno, cor de palha, conhecido como mosquito-palha, birigui ou tatuquira (Lutzomyia longipalpis). Ele se cria em locais úmidos, sombreados e com matéria orgânica, como folhas, frutos caídos e fezes de animais, e pica principalmente ao entardecer e à noite.
Com muito menos frequência, a infecção também pode passar da mãe para os filhotes durante a gestação, por transfusão de sangue de doador infectado e, possivelmente, no acasalamento. Por isso cães doadores de sangue são testados.
Como reconhecer o mosquito-palha
- É bem menor que um pernilongo comum, com 2 a 3 mm.
- Tem cor clara, amarelada ou de palha.
- Voa baixo, em pequenos saltos, e pousa com as asas abertas e levantadas.
- Não faz o zumbido típico dos pernilongos.
Sinais no cão
Muitos cães infectados passam meses ou anos sem sintomas. Quando a doença se manifesta, os sinais são variados:
| Pele e pelos | Corpo e órgãos |
|---|---|
| Perda de pelos e descamação, principalmente ao redor dos olhos ("óculos") | Emagrecimento progressivo, mesmo comendo |
| Feridas no focinho e nas pontas das orelhas | Aumento dos linfonodos ("ínguas") |
| Unhas muito compridas e curvas (onicogrifose) | Sangramento pelo nariz |
| Feridas nos cotovelos e articulações | Cansaço, fraqueza e manqueira |
| Pelo opaco e quebradiço | Lesões nos olhos, como conjuntivite e uveíte |
| Sede e urina em excesso, vômitos (rins afetados) |
Como é o diagnóstico
O diagnóstico combina exame clínico e exames de laboratório:
- Sorologia (testes rápidos, ELISA, imunofluorescência): detecta anticorpos. No programa oficial brasileiro, o teste rápido é usado para triagem e o ELISA para confirmação.
- Exames parasitológicos e PCR em amostras de linfonodo, medula óssea ou pele.
- Hemograma, bioquímica e exame de urina, incluindo a relação proteína/creatinina urinária, para avaliar os rins e definir o estágio da doença. Alterações comuns são anemia leve e aumento das proteínas do sangue (globulinas).
Os estágios da doença
As diretrizes internacionais da LeishVet dividem a doença em quatro estágios. O estágio orienta o tratamento e o prognóstico.
| Estágio | Como o cão está | Rins | Prognóstico |
|---|---|---|---|
| I · Leve | Poucos sinais, como ínguas ou lesões pequenas de pele | Normais | Bom |
| II · Moderado | Lesões de pele espalhadas, emagrecimento, anemia leve | Normais ou com leve perda de proteína na urina | Bom a reservado |
| III · Grave | Sinais anteriores mais lesões nos olhos, articulações ou vasos | Doença renal com perda de proteína | Reservado a ruim |
| IV · Muito grave | Doença avançada, complicações graves | Doença renal avançada | Ruim |
Tratamento: o que mudou no Brasil
Até 2016, o tratamento da leishmaniose canina não era permitido no país. Em 2016, uma nota técnica conjunta dos Ministérios da Agricultura e da Saúde autorizou o registro do primeiro medicamento veterinário para a doença, à base de miltefosina.
Hoje, o tratamento:
- é feito com medicamentos de uso veterinário registrados no Ministério da Agricultura. O uso de medicamentos humanos para tratar cães é proibido;
- costuma associar outros medicamentos de uso prolongado, definidos pelo veterinário, e o tratamento dos rins quando necessário;
- melhora os sinais e reduz a quantidade de parasitos, mas não elimina a infecção. O cão precisa de exames periódicos por toda a vida, e recaídas podem acontecer;
- deve ser acompanhado de proteção contínua contra o mosquito, para que o cão tratado não sirva de fonte de infecção.
Casos confirmados devem ser comunicados ao serviço de vigilância em saúde do município, que orienta as medidas para a comunidade.
Como é o acompanhamento
Nos primeiros meses, as reavaliações são mais frequentes. Depois, se o cão estiver estável, costumam ser feitas a cada 6 a 12 meses, com exame clínico, hemograma, bioquímica, urina e sorologia. Voltar a emagrecer, ter sede excessiva ou novas feridas são sinais para antecipar a consulta.
Prevenção em camadas
Nenhuma medida isolada é suficiente. A proteção vem da soma delas:
- Coleira repelente com deltametrina (ou outro repelente registrado para flebotomíneos): troque no prazo indicado na embalagem e coloque antes do período de mais mosquitos. Em estudos de campo, cães com coleira de deltametrina tiveram muito menos infecção.
- Quintal limpo: recolha folhas, frutos caídos e fezes; evite acúmulo de matéria orgânica, que é onde o mosquito se cria. Poda de árvores e arbustos ajuda a reduzir sombra e umidade.
- Proteja o cão no fim da tarde e à noite: abrigos fechados com tela fina, quando possível.
- Check-up e exames: cães que vivem em áreas com casos ou que viajam para elas devem fazer testes periódicos, conforme orientação.
- Castração ajuda a reduzir o número de cães errantes e a circulação da doença.
E a vacina?
A vacina contra leishmaniose que era usada no Brasil teve a fabricação e a venda suspensas pelo Ministério da Agricultura em 2023, após fiscalização identificar lotes fora do padrão. Até o fim de 2025, a vacina seguia suspensa, sem data de retorno. Converse com a equipe sobre a situação atual antes de tomar decisões, e lembre que, mesmo quando havia vacina, a coleira repelente continuava indispensável.
Mitos e verdades
- "Leishmaniose passa pela lambida ou pela mordida." Mito. A transmissão é pela picada do mosquito-palha.
- "Cão sem sintomas não tem leishmaniose." Mito. Muitos infectados passam anos sem sinais.
- "Coleira sozinha resolve." Ajuda muito, mas a prevenção funciona em camadas.
- "Cão tratado está curado." O tratamento controla, mas o acompanhamento e a proteção contra o mosquito são para a vida toda.
- "Posso usar coleira de cachorro no gato." Nunca. Os piretroides das coleiras de cães são tóxicos para gatos.
Atenção com os gatos
Gatos também podem se infectar, embora seja menos comum. E há um cuidado importante: coleiras e pipetas com deltametrina ou permetrina, feitas para cães, são tóxicas para gatos. Nunca use produtos de cão em gatos, e cuidado em casas onde cães e gatos dormem juntos.
Leishmaniose na Bichos & Cia, em Ubá
Na Bichos & Cia fazemos a avaliação clínica, a coleta de exames laboratoriais para diagnóstico e estadiamento e o acompanhamento de cães em tratamento, além de orientar a prevenção de cada família. Se você mora em Ubá ou em uma das cidades da região, informe-se também com a vigilância em saúde do seu município sobre a situação local. No nosso Pet Shop você encontra coleiras repelentes. Veja também o guia de antipulgas e carrapaticidas.
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
- Solano-Gallego L, Miró G, Koutinas A, et al. LeishVet guidelines for the practical management of canine leishmaniosis. Parasites & Vectors. 2011;4:86. Texto completo
- Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 001/2016 MAPA/MS: registro de produto para o tratamento da leishmaniose visceral canina.
- Brasil. Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008. Proíbe o tratamento da leishmaniose visceral canina com produtos de uso humano ou não registrados no MAPA.
- Brasil. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa suspende fabricação e venda e determina o recolhimento de lotes de vacina contra leishmaniose. 2023. gov.br
- Dantas-Torres F. Canine leishmaniosis in South America. Parasites & Vectors. 2009;2(Suppl 1):S1.
- Killick-Kendrick R, Killick-Kendrick M, Focheux C, et al. Protection of dogs from bites of phlebotomine sandflies by deltamethrin collars for control of canine leishmaniasis. Medical and Veterinary Entomology. 1997;11(2):105-111.




